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20150326

A clara escuridão

"[...] É o que eu faço quando o sono se recusa a vir. Deixo-me ficar deitado na cama e conto-me histórias.[...]"

Paul Auster (in: Homem na Escuridão, traduzido nas edições Asa, p.8), apelidado de mestre do "surrealismo real", conduz-nos assim para uma história de transposição dos locais de guerras reais para ficcionais, aquelas que moram dentro da consciência coletiva.
E é esse real que nos afronta e persegue há vários anos mergulhando-nos num hiperrealismo de contabilidades e défices de que pouco como cidadãos comuns entendemos. Dizem-nos que é economia de mercado (há quem lhe chame guerra); parece que de repente tudo se apagou: ficamos numa escuridão devastadora. De nada mais podemos saber como se mais nada exista para além da luz que 'ilumina' a ribalta do défice...
Por mim o verdadeiro défice está em tudo aquilo que não nos é dado a conhecer, nas histórias que podíamos criar e não nos são permitidas 'escrever'; por nada mais sobrar para além do tempo ocupado pelo lixo com que nos atulham os sentidos... Parecemos meros espetadores, fantoches nas mãos de comediantes stand up que nos manipulam os sorrisos para a brejeirice. E rimos para sermos socialmente aceites na caderneta de cromos que fazem parte destes tempos sem tempo dado à reflexão. E refletir para quê se não o sabemos escrever e, então, podermos olhar para uma parte da forma dos nossos pensamentos.

Também pela mão de uma "Morte sem mestre" ficamos a saber que:
"A escrita afasta concretamente o mundo. Não é o melhor método, mas é um. Os outros requerem uma energia espiritual que suspeita do próprio uso da escrita [...]"
(Herberto Helder, in: Photomaton & Vox)

Até onde, nos dias que nos dão a conhecer, seremos capazes de intercetar nos outros as nossas interpretações sobre a escuridão de ser.

20121009

Talvez poesia... para esbracejar aos tempos que passam...


Nenhum corpo é como esse, mergulhador, coroado
de puros volumes de água.
Nenhuma busca tão funda, a tal pressão,
como pesa na água uma ilha fria,
a raiz de uma ilha.
Uns procuram ramas de ouro.
Outros, filões de púrpura unindo
sono a sono. Há quem estenda os dedos para tocar
as queimaduras no escuro. Há quem seja
terrestre.
Tu esbracejas entre sal agudo.
Não falas, mal respiras, moves-te apenas
e fulguras
como uma estrela cheia de bolhas.
Feroz, paciente, arremetido, mortal, centrífugo.
Com todo o peso do coração no centro.
Herberto Helder

20081111

E de vez em quando um poema descobre-nos

Surdo, subterrâneo rio de palavras
me corre lento pelo corpo todo;
amor sem margens onde a lua rompe
e nimba de luar o próprio lodo.

Correr do tempo ou só rumor do frio
onde o amor se perde e a razão de amar
--- surdo, subterrâneo, impiedoso rio,
para onde vais, sem eu poder ficar?

Eugénio de Andrade

20070708

Aguardando a volta da setembrada!

Eis um poema que, considero, ser uma extraordinária forma de contemplar as férias.
Obrigado, Fernando Pessoa (Cancioneiro).

Análise

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica melhor em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longamente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

20070515

Feridas que teimam ficar...

(...)
Hoje
sei apenas gostar
duma nesga de terra
debruada de mar.

Miguel Torga

(A todas as crianças desaparecidas)

20070413

Pequeno Poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
[...]

Assim descreve
Sebastião da Gama a simplicidade das coisas... sem necessitar de Dr...
Como podia a nossa vida ser feita de coisas simples, sem complexos de títulos.


20061016

AntiEgo

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade; lembram-se?